Dia 19 de junho

Dia 19 de junho
A professora  transpirando vontade de novidade
disse que iria sortear uma pessoa –impreterivelmente uma que não possuia uma falta na aula dela- e iria sortear um livro
Amo livros
“Não poderia ser outra coisa?”
Não. Não poderia. E não foi.
A sala se fez uma floresta, uma fazenda, cheia de bichos raivosos babando branco por entreterimento e não matéria
Eu quieta. Não como um bicho preguiça, estava mais para tigreza observando os suínos selvagens marcando presença. Rindo também. Porque é muito engraçado ver o que as pessoas fazem por atenção.

 De três pessoas, aquela que mais desgostava foi escolhida.
       A professora olhou para mim, com face de desintendimento.
       Amo ler. Amo ganhar livros. ~ era o que -querendo ou não- estava escrito na         
                        minha testa.
Isso se fez visível quando a professora disse que tudo bem. Daria um livro para cada uma pessoa.
Perguntou para cada um qual o livro que queriam. Eu sorri e disse: Eliane Brum.
Ela sorriu de volta. Sabe que todos os bons sentimentos que existem eu tenho pela escritora.

Dia 26 de junho
Dois dias após meu 21º ano viva.
Estava feliz porque chovia. Chuva é o que mais gosto, além de você, claro.
A professora esperou dar 10 minutos depois do início da aula e fez a chamada.
Eu sozinha, novamente.
Não vejo problema em sentar sozinha, ou ficar sozinha. É melhor ficar sozinha do que em má compania –já diz minha mãe.
Estava feliz porque nublava.
A professora com um pomposo lenço no pescoço sentou e anunciou que os livros estavam ali.
Não acreditei, muito rápido, uma semana.
Ela me deu o pacote prata e disse que não tinha Eliane Brum, porque nenhuma das livrarias do shopping principal tem livros dela (o que eu já sabia), e que o escritor Felipe Pena é um jornalista e resolveu fazer romances.
Não me decepcionei.
Já conheço a escrita da Eliane Brum. Agora Felipe Pena…? Me deixou com um pulga atrás da orelha.
Agradeci pelo livro e sufoquei a professora com um abraço. Era a semana do meu aniversário e (para mim) aquele foi o presente dela para mim.
Não aguentei de curiosidade.
Por que ela tinha que ter me dado o livro antes da revisão começar?
Semana que vem tem prova.

A revisão foi amena. Tranquila tranquila.
.ônibus.fomfoooom.
Cheguei em casa super feliz. Queria ler o livro logo, só que a empregada buscaria Sara e eu só tinha 30 minutos para fazer minha comida, uma vez que só como o que eu mesma preparo e cozinhar me deixa prazerosa.
.almocei..
13:15 a irmã tem aula de reforço na escola.
Está tendo obra aqui no corredor do apartamento, estão tirando os pisos e colocando outros, barulho com eco o mais alto que você já ouvira.
A empregada faz barulho em qualquer ação que faça. Desde varrer o chão a lavar a louça.
EU LEVO A PEQUENA NA ESCOLA!
Como ninguém lutou contra minha vontade, arrumei a Sara e fomos.
Em cinco minutos de caminhada: o céu abriu, ficou azul, o sol queimou nossa pele, nublou chuviscou. e
Detalhe para o frio: usava uma calça preta por baixo da calça jeans clara, e em baixo do moletom existia uma blusa de lã e uma blusa normal em formato de T que consistia na primeira camada.
Passamos pelo portão, deixei a irmã na sala depois do refeitório, andei até os banquinhos na secretaria e ali sentei para ler o livro.
O Verso do Cartão de Embarque
Detalhe para o tempo instável de Vitorinha: enquanto eu lia, reparei no campo de futebol que estava verde vívido sendo banhado com os raios solares, e logo após, na chuva intensa que fazia ventar forte no meu rosto.

Pastoriza
Papéis
Nina
pequenos
Berenice
marcando
Nicole
cada
Investigação
frase
Profs detetives
importante-

Seus chefes diziam que ela precisava ser objetiva, mas Berenice insistia na subjetividade (…)

 Invejosa, gorda, recalcada – repondia, mentalmente, com olhos de vodu.

Claudete Clotilde
Geraldo Jiraldino
Fabrício Faraó
Haroldo Erodes
Milena Madalena

Respirou.
\0/.

CENA1 – ROTEIRO SOBRE O ENCONTRO

FADE OUT.

Berenice procura
Nicole se encontra

(AVISO: caro(a) amigo(a), você não precisa ler os parágrafos a seguir para continuar acompanhando a história. Vá direto para o próximo capítulo e evite as contraindicações)

A aula acabou, fui ao seu encontro e ela me abraçou.
Clima ameno lá fora.
Fomos de mãos dadas para casa.
Nublado agradável cobria o céu.
~
O barulho continuava de ambos lados.
 ~brinquei com Sara até a hora de dormir~
Uno-pipoca doce-suco-vitamina de banana-uno-filme
Mams chega em casa. Hora de dormir.
Boa noite!
Embaixo do cobertor, a luz da tela do celular é o que comanda para o próximo capítulo. Após a leitura, dormi.

Acordei sete horas. Horário biológico.
Mesmo sendo antes das oito, minha cabeça fervia com teoria sobre a história.
E se Berenice fosse Nicole e se fosse Nina?
E se Pastoriza não tivesse fugido e sim só estava escondido de todo mundo em um porão? Para ver se as pessoas iriam sentir falta do garanhão.
Li.Li.Li.
13 horas marquei de almoçar com Bê e dad no shops para aliviar o estresse da faculdade.
Lógico que o verso do cartão de embarque estava na bolsa. Queria ter minar o livro de qualquer maneira. Ainda: página 157.

Me impressionei como os conceitos jornalísticos, aquelas que tem gente que decora para a prova, estavam presentes de forma tão suave no texto.
Não acho que uma pessoa que nunca passou pelo curso de jornalismo conseguiria entender plenamente a leitura. Pelo menos não como eu entendi.
Comemos salada no subway. O sanduíche sem o pão.
Tenha uma boa tarde você também, mesmo se colocou mais alface para eles dois do que para mim. Boa tarde. Mesmo me tratando mal, não me interessa. Boa tarde.
Ouvi eles conversarem sobre política, assunto que me traz um sono instantâneo. Pensava o tempo todo em como Berenice seria a Nina se Nicole tinha mais traços que combinavam com ela. E torcia sempre para a jornalista, mesmo com os clichês presentes. Torcia para a qual eu mais simpatizava, como uma boa amiga faz.

Depois do almoço;
Próximo ambiente: livraria.
Já tinha percebido no mês passado que a organização mudou. No lugar de duas cadeiras, colocaram nada. Tiraram as duas cadeiras que se eu tivesse sorte estariam vazias e eu acabaria com o Pastoriza de vez.
Andei mais um pouco. Sozinha. Porque depois que um foi embora, o outro ficou na ala de administração e concursos públicos. Como quem não quer nada, andei pela livraria.
Não achei bancos vazios e fui comunicar a ele que não tinha nada para fazer ali. Uma vez que o que eu mais queria era terminar de ler o livro. Mesmo faltando mais de 50 páginas. Quantidade de folhas não é problema para mim. Amo ler.
Amo ler.
Antes de eu falar com ele, reparei que tinha uma mesa pequena e duas cadeiras. Sentei.
Li que eles estavam em um lugar que vende chá, e que o chá tem a língua do Mao Tsé-Tung. Eles estão na China? MENTIRA!
pag.: 172

Acabou o capítulo da China, e fomos para casa.
Deitei na cama e li o livro.

“Se os senhores morressem em um acidente aéreo, quem gostariam que fosse a primeira pessoa a ser avisada?”

ESPERA

A liguagem é a chave do processo…

Pastoriza está em uma palestra falando sobre um exercício em que cada pessoa da clínica psiquiátrica descreve a cena do seminário em um caderno. E o caderno… É O LIVRO!

NÃO ACREDITO
Felipe Pena, você vai realmente deixar Nina sem um rosto?
Berenice sem um amor?
Sandrinha com um doutor?

Nicole e todo mundo numa sala de psiquiatria
AHAHAHAHAHA –levantei da cama-
MAS ESSE É O MELHOR LIVRO!
Sentei na cama –mas então nada aconteceu?
Claro que Pastoriza sumiu da vida deles. Eles não precisavam saber onde ele estava

Mas
    acabou assim?
Estou tão acostumada com romances e um fim concreto que estava até mesmo torcendo para quem vai ficar com Pastoriza
E quem é a Nina
E quem é a amada real entre clichês de músicas do Renato e…

Entre euforismos e surpresas
Entre o clichê e o fora do clichê
Entre plongée e contra-plongée
Gostei tanto do livro que meu primeiro pensamento foi procurar saber mais sobre o autor. Sobre Felipe Pena que veio embalado de Eliane Brum, o que não foi problema, porque foi mais surpreendente do que qualquer livro que alguém poderia me presentear.

Assisti sua última entrevista com o Jô. Ah mas o Jô… foge da pauta como ninguém, ou finge que foge –vai saber ele não foge é coisa nenhuma.

Pera

Felipe Pena deu o livro que eu tenho para o Jô. Aw que carinho!Tirei uma foto com o livro. Diversas fotos. Abraçando, em cima do meu colo, em cima da

cama. Como uma boa e assídua da rede social, postei a foto no instagram. Adicionei o escritor no instagram e twitter. Disse para mim mesma que como a escritora que sou, vou escrever como o livro voou para minhas mãos e como foi minha apreensão com o final, e que Final!

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Modos de Usar

Entre linhas, nuvens, maçãs, massan, céus, gargalhadas e um bigode
por Ingrid Lourenço
Quase perdemos o ponto. O sol aparecia e não sumia. Não tinha nem uma nuvem no céu. Mal entrei no Museu de Arte do Espírito Santo (MAES) e um bigode em um menino veio falar comigo. Sabia que o nome dele era Juan, variante espanhola do nome João, mas o bigode de mexicano foi imprescindível para o reconhecimento. Olhei para o bigode, depois o sorriso, e sabia que aquele era ele, o Arte- educador.
Me mostrou o projeto da Lourenço, irmã de sangue. Um orgulho inimaginável. Ignorando todo o passado-recente, estávamos ali. Juntas. Depois de tanto tempo sem oi. Quem diria, aconteceria um dia. Um passo do tamanho da perna. Pela primeira vez o espaço do núcleo arte-educativa teve em suas paredes obras do acervo do museu. A parede sendo obra exibida no museu. A parede se enrolando com as linhas.

O divertido bigode nos mostrou tudo. Começando, claro, pelo projeto dela. Cada monte isolado era uma mapa astral, feito de linhas. Ayla e as linhas. Linhas de costura. O que já a vi fazer e refazer dias e noites em casa mas não entendia. O mapa astral de cada funcionário do Museu estava enfeitando a parede direita. Localizado na frente da porta de vidro, privilegiado lugar que dava para o pôr do sol. Linhas vermelhas e azuis contornavam cada centímetro e, rígidas, suas ligações eram feitas no parafuso. Ela viu as que estavam saindo do parafuso, e tirou duas linhas penduradas que descompassavam a harmonia-padrão.
Próximo ambiente: biblioteca. 
Porque era o momento que Juan tinha para conversarmos
“A exposição foi bem acolhida, apesar de todos os trabalhos apresentados serem contemporâneos, conceituais, e trazerem uma concepção diferente do que é arte” 
Antes que as crianças chegassem.
“Especialmente na exposição atual, que atuou no período de férias de fevereiro o número foi maior de turistas, tanto de outros estados quanto de estrangeiros” 
Passaram 20 minutos
“Coisas que não são costumeiras no Centro são bem recebidas e bem divulgadas na imprensa”
 E nada
“Foi uma exposição que abriu meu campo de visão sobre o que é arte contemporânea. Que não é só aquela maluquice sem sentido, que causa uma repulsa”
E tudo.
“Amadureci em relação a arte contemporânea. Ainda não sei o que é a arte contemporânea. É um processo que nunca para”, Juan Gonçalves, arte-educador do Museu MAES. 
Mediador
A maneira como se chama o educador, ou arte-educador, foi alterada no museu. Antes era usado o termo mediador, para caracterizar aquele que interage com as artes, que desenvolve o pensamento dela junto com o pensamento do visitante. Uma relação horizontal. “A que ponto a arte precisa ser mediada? Diante de uma tela, é preciso de uma pessoa para mediar esse diálogo? Foi nesse pensamento que a gente chegou na palavra: educador/arte-educador”, explica Gonçalves.
Quando subia as escadas, o segurança me avisou que não tinha energia no momento e que o segundo andar estaria deserto. Escuro e sem visão. Desci da metade que tinha subido. Saímos e modelamos no sol da calçada. Esperando, no quente, a energia da luz se mostrar presente. Controladora de eventos. Juan tirou fotos nossas. 
Ouvimos uma voz feminina gritando o nome dele e as crianças chegaram.
Crianças
As crianças encheram o lugar com alegria, gritos e sorrisos. O baixo volume da voz, entende-se por: timidez do lugar não-conhecido, logo cessou e o volume alto tomou conta do museu. O Museu não era mais o mesmo. Transbordou. Efervescência intrínseca de crianças com cinco anos de idade transbordou.
Após reunir os pequeninos a sua volta, sentados no chão, Juan se apresentou e disse que o museu estava sem energia, sem luz, e que, por isso, deveriam começar a visita por outro lugar. Mas qual lugar? As crianças não ligaram. Estavam felizes por estar ali. Depois que Juan disse que a energia tinha caído, ela voltou. Só queria atenção.
Brilho no Breu. 
Brilho que trouxe a luz de volta. 
Brilho que são as crianças.
Iluminura no breu.
O Museu vazio é bonito pela solidão das obras que os seguranças observam com astúcia. Porém, o Museu cheio de crianças possui uma alegria fora do normal. 
Comentários sinceros. Fala humilde. Se divertiam com o que tinham. 
O silêncio mórbido foi substituído pelo movimento sapeca.
As crianças, guiadas pelo Juan, se encontraram e se encantaram nos diversos cantos nos projetos expostos. A visita das 35 crianças teve continuação e eu, pude subir as escadas para o segundo andar.
Maçã 
O ser humano depois de um tempo parado se torna insólito. Se torna nenhum.
A maçã ainda está ali, depois de todo o tempo decorrido
Apodrece(u)
                                                                                  mas o espaço é o mesmo inicial, a diferença é que sua aparência bonita e jovem murcha. Some.
Reino Fungi. O fungos tomaram conta.
Possui não mais um ser vivo e sim um interior vazio. Eco. Oco.
Mas o corpo ali permanece.
Mesmo com o corpo inútil para os vivos os fungos gostam.
Apenas a primeira maçã não foi mordida.
No contato com a saliva inquinada do ser humano se putrefizeram.
“Sem título” -Dionísio Del Santo, 1989
Serigrafia sobre papel.
Uma noite estrelada.
Muito fácil.
A arte precisa ser mais complexa. Ou será que pode ser aquilo que a gente imediatamente vê?
Galinhas ciscaram por ali e essas são as marcas dos pés das galinhas.
De branco e preto.
Observei várias desenvolturas.
Confundindo a minha imaginação até o fim.
Massan -Elpídio Malaquias 
Cores. Sem técnica precisa. Sua técnica é a não-técnica. Não querendo mostrar que sabe pintar. Ele pinta. Pinta o que vê, o que sente. “Meninas. vendendo massan”
Laranja, azul claro, amarelo. 
A parte de cima se assemelha a um caju. 
Majus. 
Apesar do olhar espantado, o colorido agrada a quem vê.
Edições Limitadas
Pequenas revistas estavam em cima de uma mesa em uma sala branca. Posicionadas ao redor das extremidades. Convidando o leitor a se juntar a elas. Suas capas eram variadas, nem sempre proporcionando um agradável olhar ao ser cru em cultura. Nem sempre completando a palavra proposta. Nem sempre pronto do jeito que o humano é acostumado a ver.
O projeto é o que mais casou com a ideia da Exposição Modos de Usar. O artista, Gabriel Borem, operou diretamente em exemplares de revistas de arte e cultura por meio de cortes e reencadernações para a estratégia de edição. Borem desmembrou as revistas de suas capas e soltou cada uma de suas páginas. Com base em uma proporção de aproximadamente 25% da área do tamanho de cada publicação foi feito um gabarito que projeta as áreas de corte; em cada página foi feita uma seleção de recorte com o gabarito. Depois, as páginas e a capa foram reunidas e encadernadas em uma nova edição, transformando-se em uma revista editada em dimensões variáveis. Respeitando a ordem das páginas mas com o tamanho aproximado de um quarto do exemplar original.
Inicialmente, ao entender a criação minha ideia foi selecionar, aleatoriamente, um livro e abrir em uma página também, aleatória.
“Clássico. É na morte do pai que as humilhações sofridas em toda uma vida decantam-se na tomada de consciência racial rigorosa, mas livre de ódio. De um filho desta Terra” 
e
“(…) Essas paisagens ficcionais representam geografias impossíveis que existem como ficções de territórios inventados”
foram os resultados do experimento.
Em 2006 Gabriel Borem foi convidado a participar de uma mostra coletiva itinerante proposta por artistas do Rio de Janeiro que aconteceu na Galeria Espaço Universitário, na Ufes. Na época, Borem possuía uma produção muito intensa em pintura, quase sempre com grandes formatos. Mas a mostra em questão tinha uma particularidade muito específica: os trabalhos deveriam ser de no máximo 10 x 10 cm, por isso foi chamada de “Nano Exposição”. “Foi diante da necessidade de trabalhar com pequenos formatos que vislumbrei a possibilidade de editar a minha primeira revista,reduzindo seu tamanho final para dentro dos paramentos da mostra”, explica Borem.
A partir dai, seguiu editando outros exemplares tendo realizado em torno de 24 revistas até 2009, porém sem dar o acabamento. Em 2013, reuniu ideias a cerca da proposta, desenvolveu conceitualmente e alinhou o projeto Edições Limitadas ao escopo do edital.
“Submeti o meu trabalho em forma de projeto para o edital 015/2013 de bolsa ateliê da Secretaria de Estado da Cultura (Secult)”, conta Borem.
Céus
Ao entrar em uma sala com as quatro paredes pretas, parei. e olhei da esquerda para direita. Não consegui terminar a volta de 180 graus. Parei no momento em que reparei na quantidade de fotografias de céu que estavam na parede do meu lado (esquerdo).
Meu corpo anulou os sentidos. Imobilizei todos os ruídos exteriores. 
Apenas eu e os céus.
Estava mesmo vendo (5x4x8) 160 fotografias de céus? 
Vontade instantânea de abraçar a parede. De guardar cada foto do céu na memória, de guardar na minha bolsa, de levar para casa e colocar nas paredes do meu quarto. Passado o momento de impulsos, 20º sul foi o projeto que mais prendeu minha atenção. Admirei cada pedacinho do céu de cada estação de Manguinhos, localizado no ES, e Iquique, localizado no Chile. A artista, Ludmila Cayres, estudou a luz dos céus das duas cidades que se localizam a 20º sul de latitude. Produziu registros no período de um ano, acompanhando as quatro estações. Um estudo cromático dos horizontes.
Céu alaranjado, céu azul, céu escuro, céu acinzentado, céu amarelo, céu cor de musgo, céu verde, céu cor de burro quando foge, céu lilás, céu rosa, céu com nuvens formosas, céu cor que lembra saudade…
Negritude.
O fundo preto realça muito mais a cor de cada fotografia.
Nenhuma cor se repetia. Nenhum céu era igual. Todas as nuvens dançando em descompasso. Excêntricas. 
Gosto de nuvens por esse motivo: porque elas nunca estão do mesmo jeito, são efêmeras, como devemos ser.
Os céus de Iquique sendo desconhecidos aos olhos de uma capixaba. É surreal. Cada foto tem uma cor específica. Já em Manguinhos, não. Em Manguinhos existe uma variação enorme de nuvens, de céus. Uma variação frequente aos nossos olhos. O que não é visto em Iquique. Porque em uma fotografia, o céu é azul e logo na outra é laranja, lilás… parecem de outro mundo. 
As nuvens tem formatos diferentes, porque o vento lá é outro. Não é em nada comparado ao que vemos aqui no Espírito Santo. Possui um contraste gritante.
Um sorriso embaixo do bigode
Impossível estar em um Museu e não notar a diferença que faz quando as crianças estão por ali. A visita é calorosa e divertida. Juan é comunicativo com jovens, mas ao falar com crianças seu rosto ilumina. Mostrando que aquele é o momento dele. O momento de ouvir as verdades abusadas das crianças. O momento que elas perguntam se seu bigode é de verdade ou é de mentira. O momento em que os vários sorrisos se fazem refletir no seu olhar. “É o público mais legal de se trabalhar. Até porque são crianças, elas ficam impressionadas com tudo e eu acabo me impressionando com o impressionamento delas”, explica Gonçalves. 
Sentado no chão, no meio das crianças, Juan se confundia com uma. Percebi que seu olhar de interesse e curiosidade era igualável ao dos pequeninos. “O que elas te dão de repertório, de imaginário, é incrível. É uma troca”, diz Gonçalves. Perfeita combinação. Um educador feliz e crianças animadas. “Gosto de pensar que a arte-educação às vezes deseduca. Não no sentido de virar todo mundo louco, mas para sair de um padrão, do ‘não pode encostar’, do ‘sou um robô’”, conta Gonçalves.
Quando as crianças chegam no segundo andar, Juan pergunta: quem está gostando do Museu? De todas as crianças, cinco dizem sim. Uma diz não. As paredes rabiscadas reinaram e conquistaram a atenção de cada uma delas. 
Durante a visita, foram conduzidas, uma atrás do outra, em trenzinho fazendo piu-í-tchá-tchá-tchá. “Os alunos estão eufóricos, gostei da participação deles. A melhor parte foi quando eles puderam desenhar, então, nesse momento eles já manifestaram o primeiro impacto sobre o trajeto e a chegada ao Museu”, conta Gabriela Rouxinol, professora de Artes.
Depois de tanto andar, as crianças foram embora e o museu voltou à solidão inicial. 
De sorriso, só o bigode.
Os céus, as linhas, as maçãs, as pinceladas… foram desbotando no tempo até desaparecer.
Fomos embora. Quem diria, aconteceria um dia. Eu e ela. Juntas. De novo.
Nos áudios é possível reviver as conversas, mas nunca será o momento de novo. Nunca será o replay.
Serviço
Localização: O Museu MAES é localizado na Avenida Jerônimo Monteiro, 631 – Centro, Vitória – ES. 
Período da exposição: A exposição Modos de Usar será apresentada no período entre 07/02 a 31/05.
Visitação: Terça a sexta-feira, das 10 h às 18h. Aos sábados, domingos e feriados das 10 às 17h. Entrada gratuita.
OLHO: “Gosto de pensar que a arte-educação às vezes deseduca. Não no sentido de virar todo mundo louco, mas para sair de um padrão, do ‘não pode encostar’, do ‘sou um robô’” – Juan Gonçalves, arte-educador.

BOX: 

História do MAES

O Museu de Arte do Espírito Santo Dionísio Del Santo – MAES, é um Patrimônio Cultural do Estado do Espírito Santo, pertencente à estrutura organizacional da Secretaria de Estado da Cultura – Secult. Está sediado em um prédio tombado pelo patrimônio do Estado, que existe há mais de 80 anos. O prédio foi construído a partir do projeto arquitetônico do tcheco Joseph Pitilick e concluído em 1925. Foi inaugurado no dia 18 de dezembro de 1998. Na ocasião foi feita uma homenagem ao artista que nomeou a instituição: o capixaba Dionísio Del Santo, que faleceu no ano seguinte.
O MAES já sediou no passado o “Serviços de Melhoramentos”, órgão responsável pelo planejamento urbanístico da cidade. Posteriormente acolheu várias instituições públicas estaduais como o Diário Oficial, setores da Secretaria de Administração e dos Recursos Humanos e a Secretaria da Fazenda. O prédio foi cedido ao Departamento Estadual de Cultura (DEC) em 1987. Atendendo à uma antiga reivindicação que mobilizou intelectuais e artistas capixabas, o DEC resolveu abrigar a sede de um museu no antigo edifício. 
O MAES possui uma área expositiva com cinco salas e hall, distribuídos em dois pisos. Uma Biblioteca que tem aproximadamente 3.000 títulos na área de artes plásticas, patrimônio e museologia, além de um auditório com capacidade para 40 pessoas.
 Na Exposição atual, Modos de Usar, os artistas selecionados pelo Edital 015/2013 da Secult, apresentaram alguns dos trabalhos que resultaram das pesquisas desenvolvidas ao longo da Bolsa Ateliê. 
Todos os projetos da exposição expressam alguma noção ampliada de “uso”. Seja na proposição de usos alternativos da lógica museológica, ou no trato das imagens, seja na ambição crítica em relação às normatizações técnicas e de linguagem, seja nas exigências que endereçam à percepção. Os trabalhos elaboram instâncias em aberto, inconclusas, que convidam o espectador a envolver-se nas experiências.
As idéias de “uso”, portanto, não se esgotam em funcionalidades e interatividades mecânicas, nem na instrumentalização alienada do consumo, mas são construídas e se oferecem como forças de apropriação poética.